Civili-Tea-Room – Sobre a Doçura

docura

A Doçura como Virtude

A doçura é uma virtude feminina. É por isso, talvez que ela agrada, sobretudo, nos homens.
A virilidade não é nem uma virtude nem uma falta. Mas é uma força, assim como a feminilidade é uma riqueza (inclusive nos homens), e uma força também, mas diferente.
A doçura é uma força, por isso uma virtude: é força em estado de paz, força tranquila e doce, cheia de paciência e de mansietude.


Como explica o filósofo francês André Comte Sponville em seu livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes , a doçura é o que mais se parece com o amor, sim, mais ainda que a generosidade, mais ainda que a compaixão. Aliás ela não se confunde nem com uma nem com outra, embora na maioria das vezes as acompanhe. A compaixão sofre com o sofrimento do outro; a doçura se recusa a produzí-lo ou a aumentá-lo. A generosidade quer fazer o bem ao outro; a doçura se recusa a lhe fazer mal. Quantas generosidades inoportunas, porém, quantas boas ações invasoras, esmagadoras, brutais, que um pouco de doçura teria tornado mais leves e mais amáveis?


Virtude de flexibilidade, adaptabilidade, fluidez
A doçura é acolhida, é respeito, é abertura. Virtude passiva, virtude de submissão, de aceitação? Talvez, e mais essencial ainda por causa disso. A passividade não é a inação ou a preguiça. Deixar-se levar pela corrente, nadar com ela, em vez de se esfalfar contra as águas ou se deixar arrastar… A doçura submete-se ao real, à vida, ao devir, ao mais ou menos do cotidiano: virtude de flexibilidade, de paciência, de devoção, de adaptabilidade…


O amor é doçura e dom.
É o contrário do estupro, é o contrário do assassínio, é o contrário da tomada de poder ou de controle. É Eros libertado de Tanatos e de si.
O sábio, dizia Spinoza, age com “humanidade e doçura”.
A doçura é uma espécie de bondade natural ou espontânea, cuja máxima seria a seguinte: “faz teu bem com o menor mal possível ao outro.”


Doçura e Gentileza
“No nível mais modesto, a doçura designa a gentileza das maneiras, a benevolência que atestamos para com outrem. Mas ela pode intervir num contexto muito mais nobre. Manifestando-se em relação aos infortunados, ela torna-se próxima da generosidade ou da bondade; em relação aos culpados, torna-se indulgência e compreensão; em relacão aos desconhecidos, os homens em geral, torna-se humanidade e quase caridade. Na vida política, do mesmo modo, ela pode ser tolerância, ou ainda clemência, conforme se trate das relações com cidadãos, com súditos ou com vencidos. Na origem desses valores está, porém, uma mesma disposição a acolher o outro como alguém a quem queremos bem – pelo menos em toda a medida em que podemos fazê-lo sem faltar com algum outro dever. (…)”
Jacqueline de Romilly – A Doçura no Pensamento Grego


Aristóteles fará delas uma virtude integral, que será o meio termo, na cólera, entre estes dois defeitos que são a irrascibilidade e a frouxidão: o homem doce ocupa o meio entre “o homem colérico e selvagem” e o “homem servil e tolo”, à força de impassibilidade ou de placidez excessiva. Pois há cóleras justas e necessárias, assim como há guerras e violências justificadas: a doçura é que delas decide e dispõe.
A humanidade não inventa a doçura. Mas a cultiva, mas se alimenta dela, e é isso que torna a humanidade mais humana.

Referência: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes– de André Comte Sponville

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